OS INVISIVEIS
Chegaram há 40,30,20, 10 anos, esperançosos e entusiasmados por terem um bocado de chão a que chamassem seu.
Plantaram árvores, plantaram hortas, trouxeram galinhas, patos, cães e gatos.
Viram triplicar, quadruplicar, a população de coelhos bravos, lebres, pássaros de muitas cores, que passaram a habitar os pinheiros e os sobreiros que foram crescendo lentamente.
Inconformados com o “NÃO.PORQUE SIM”, foram equipando as suas terras com alfaias agrícolas, ferramentas, apetrechos.
Instalaram abrigos, e cuidaram das suas culturas. Voltaram a sentir os cheiros da terra molhada, os cheiros das hortícolas.
O amanhar da terra, muitas vezes com amigos e família, foi sendo uma forma de aliviar stress, de descansar do bulício e da “lufa lufa” da vida moderna.
Reencontraram-se com as suas raízes e com um modo de vida, trabalhoso, mas simples e gratificante a nível emocional.
Adquiriram bens e serviços, contrataram trabalhadores locais, fizeram compras no comércio local, consumiram produtos da terra.
Foram assim os “invisíveis”.
Décadas depois, tornam-se visíveis. São agora réus respondendo perante a justiça pelo crime de não se conformarem com “NÃO. PORQUE SIM”.
Dulce Reis
